sexta-feira, 17 de abril de 2009

Meus guris*

Juvenis. Dos 10 aos 15 anos, esses já cheios de adultice. Reuniões recreativo-educacionais todos os domingos pela manhã. O que vejo...
A pequena de 10 anos chorou porque não sabia jogar nenhum esporte dos que se jogavam na gincana, mas queria brincar. Ensinar que ela pode aprender.
O pequeno de 11 disse que dorme mal na véspera do domingo porque quer acordar logo para ir às atividades, acorda mais cedo do que em qualquer outro dia da semana.
Com 12 anos, ela passa batom nos lábios antes de começar a jogar e me pede para segurá-los(carrega consigo mais de um) antes de ir.
Aos 13, sempre em grupo, eles são displicentes, aparentemente desinteressados, têm os cabelos desalinhados, compridos e páram sempre recostados, seja nalguma parede, poste ou um nos outros.
Todos querendo - e até precisando de - um líder, querendo imitar alguém, atender a seus comandos, ganhar sua aprovação.
*guri: termo comum ao sul da região centro-oeste(onde estou) e na região sul do Brasil para designar meninos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Universidade

Sala de aula universitária. Grupos, as chamadas "panelas".
1. Adolescentes recém-saídos da escola, bons alunos, classe média. Assistem aos mesmos programas de TV, lêem revistas semanais para estarem bem-informados, é preciso ter opinião sobre tudo. Hits da internet é assunto recorrente, acontecimentos das noites do fim-de-semana também. Sentam-se sempre juntos, ajudam-se e competem entre si simultâneamente. Sabem de si por comparação, sobretudo quanto ao desempenho.
2. Jovens que estão cursando a segunda graduação, desistiram de outra ou tentam uma nova profissão. Não tão juntos, parecem precisar menos uns dos outros. Sentam separadamente, mas próximos suficiente para um comentário quase sussurrado ser entendido. Preocupam-se mais com a presença que com o conteúdo das aulas. A universidade não é o centro de suas vidas, falam de sobrevivência, trabalho, oportunidades.
3. Aparentemente deslocados, há os flutuantes, não pertencentes a nenhum grupo, transitando entre uma roda de conversa e outra. Sentam-se quase sempre sós, parecem estar sempre apenas de passagem, sem criar laços. Enigmas.

Há inúmeras outras divisões nesse grupo, mas hoje foi essa que eu percebi durante o intervalo.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Grande Campo

Camping. Chegar antes do anoitecer para montar a barraca, pressa. Primeiro dia, disposição. Tomar banho frio com alegria, ouvindo conversas alheias. Uma adolescente conta em tom de desabafo como é ridicularizada na sua turma da escola por ser evangélica. Deitar no colchão de ar sob o céu estrelado, ser nada no infinito. Esquecer talheres, comer na panela do vizinho. Parceria. Horizonte verde, sobe e desce dos campos em ondas a perder de vista, reduzir-se. Chuva inesperada, correria, "guarda a toalha!".
Jovens nas barracas ao lado invadem meu sonho ao adentrarem a madrugada falando do futuro, ela ainda vai fazer outra faculdade, ele não quer perder o foco no estudo durante esse ano. Andam sempre em blocos, sempre juntos. Gargalham de um tombo, flertam entre si. Sutilezas. Trouxeram consigo montes de biscoitos doces recheados, raramente estão com as mãos vazias, bocas sempre ocupadas, a falar, a comer - a beijar? -, fome de vida. Quase zumbis pela manhã, elétricos à noite.
Desmontar barracas, não deixar rastro de presença, recolher pertences, despedir-se. Voltar à vida de muita informação e pouco contato, do "eu" gigante e espaçoso, do falho olhar. Não. Seguir a viajar na vida, a vidar nessa longa viagem.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Almoço

Almoçávamos num restaurante simples e simpático, sentados numa mesa na calçada, separados dos transeuntes por uma grade. Entretidos na conversa, não percebemos quando parou à beira do portão um homem alto, moreno, maltrapilho e nos fitou, pedindo, então, a comida que havia sobrado da nossa refeição. Virei-me para o outro lado à procura da garçonete, para pedir-lhe que colocasse tudo numa vasilha que ele pudesse levar. Ela não me via, custou um pouco a me atender. Passaram-se alguns segundos ou minutos algo desconfortáveis para todos e antes que ela viesse a mim ele se foi. Não sei como ele interpretou meu gesto, penso agora. Ficamos ali sentados, instalado o desconforto, marcados pelo resto de orgulho daquele homem, resto engolido para ele pedir o nosso resto de comida, mas que serviu para tentar, talvez, preservar seu resto de dignidade. Talvez - talvez - aquela incômoda espera, aquela momentânea e fugaz convivência, significaria ter que aceitar outros restos de nós, os que sentamos confortavelmente do outro lado da grade.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Caminheiro do banal


Ruando e avenidando por esta bela São Paulo (onde me encontro), caminheiro do banal que sou, entrei numa loja de artigos religiosos. E, naturalmente, lá só com a ajuda de Deus o senador Barry poderia ter chegado ao senado norte-americano.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Academia

Durante a estadia em um outra cidade, não quis abrir mão dos exercícios e resolvi frequentar temporariamente uma academia próxima. Ambientes sempre iguais esses. Ou não.
Aqui estou no meio de muitos homens assumidamente gays e muitas mulheres arrumadas, que não tiram as jóias para exercitarem-se, a desfilar por entre os aparelhos de musculação. Uma menina pequena, cujo corpo escapa ao estereótipo de "rata de academia", tem estado lá todos os dias a correr desesperadamente na esteira numa velocidade que parecia alta demais para suas curtas pernas, saindo dela para outro aparelho aeróbico e depois outro. Um rapaz esguio fez-me sorrir discretamente pois corria tal qual uma gazela, passos largos, a erguer alto aos pernas, pescoço esticado. Percebo que a maioria não se alonga, os que o fazem são rápidos e displicentes. Estranhamente, são muitos os que entram e saem sem transpirar, tendo feito apenas algumas séries de musculação e aproveitado a academia mais como espaço de convivência do que como outra coisa. Não há instrutores, a não ser um único que circula pelo salão e tem ar de dono do lugar. Todos olham-se a si mesmos e reciprocamente, namoram-se, invejam-se, orgulham-se. Culto ao corpo, a meca pós-moderna da saúde(?) e da vaidade. Uma academia típica, como outra qualquer.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Catador em São Paulo


Frequente aqui em São Paulo, onde me encontro,ver os catadores carregando o que os leitores estão a ver. Tirei a foto hoje.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ao lado

Viagem interestadual de ônibus, cerca de 1000 km para quem vai fazer o maior trajeto. Muitas senhoras de idade, duas delas sentadas próximas a mim. Reparo que muitas usam tênis, mesmo que destoe da roupa que usam, certamente pelo conforto que merecem os pés que já caminharam tanto. Uma delas sentada do outro lado do corredor, viaja com o marido, que apresenta alguma surdez e um problema de memória, pois pergunta a mesma coisa a ela várias vezes, ao que ela sempre responde pacientemente, rindo para nós. Bem-humorada, refere-se a ele em tom de brincadeira como o seu "bebezão". "Não é fácil viajar com esse meu 'malão'!", ria-se.
Sentávamos nas primeiras poltronas, tendo inteira vista da estrada e mais uma vez ela demonstra boa disposição: "Mas olha que boa essa estrada reta para caminhar a pé, né?". Tão boa companhia, nunca desagradável, do tipo que faz-nos sorrir sinceramente, por dentro e por fora. "Morei 25 anos em São Paulo e não queria sair de lá de jeito nenhum. Depois que saí, nunca mais quis voltar", contou, ao que respondeu apenas com um "hum" a outra senhora sentada ao meu lado, um pouco mais nova e com características físicas indígenas, todo o tempo seca, embora nunca mal-educada. Respondia às tentativas de conversa da primeira com simples "sim", "não", "é...".
Gente.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Braga

Estou em Braga, uma cidade nortenha de Portugal. O que é Braga? Braga é a história - especialmente de fácies religioso - com um enxerto da modernidade e, aqui perto do meu hotel, com a presença da McDonald's. A bela arquitectura portuguesa é abraçada pela globalidade viária. Tenho wireless num hotel que faz docemente lembrar uma castelo ou o interior de uma abadia e cuja sala de refeições tem o gótico beijado pelo néon da actualidade.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Hippies

Sinal fechado, atravessa a rua um casal com 3 crianças pequenas, uma delas no carrinho de bebê. O pai leva uma pela mão e outra no colo. A mãe empurra o carrinho e carrega um painel de pano onde expõe as bijouterias artesanais que provavelmente ela mesma faz. Estão um bocado sujos - mas não maltrapilhos -, provalmente por sentarem no chão das calçadas e das praças onde expõem seus trabalhos. Sentam-se numa lanchonete na esquina, ofertam aos que ali estão. Hippies que não viram nos filhos uma privação, que não deixaram de tê-los para viver sua liberdade 'fora do sistema' tanto quanto acham possível. A criança maior insiste, quer um X-salada.